(Des)fazendo vidas na fronteira

Estou escrevendo esse texto no meio de uma onda de calor em Florença, e eu juro que deve ser a cidade mais quente da Itália, pois é tão distante do interior e cercada por um anel apertado de altas colinas arborizadas que tornam quase impossível para um avião pousar quando há muito vento. Este é o verão mais quente e seco na Itália desde a década de 1960 e há discussões intensas sobre o racionamento de água em Roma, enquanto isso a agricultura sofre terrivelmente. Florença, como todas as grandes cidades italianas, é uma cidade fantasma, esvaziada de seus moradores, muitos escritórios fecham para o verão e todos se dirigem para a costa, mas ainda consegue ser barulhenta como de costume. Estamos prestes a ir para a minha cidade natal no Adriático também; as malas estão prontas, vamos partir a qualquer momento. Escrevo este texto me sentindo levemente culpada por estar atrasada, como de costume, encharcada de suor, com meus filhos ficando loucos e aborrecidos, e relutantemente tentando espremer o trabalho em todas as brechas que eu consigo encontrar. Os verões são sempre assim. Sinto como se acima da minha cabeça algumas nuvenzinhas de pensamentos furiosos estivessem pairando, ligeiramente e precariamente ligados por alguns fios invisíveis muito finos, e que tudo o que leio, o que vejo na minha vida cotidiana, o trabalho de campo, estivesse misturado levantando-se e juntando-se em uma grande bola confusa e enredada.

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